7/1/2008

Preocupação ambiental abriu novo mercado para a juta

Fonte: Gazeta Mercantil - 30/06/2008

 

Valorizado pela boa safra de café e pela crescente preocupação com o meio ambiente, o mercado brasileiro de juta deverá faturar R$ 100 milhões este ano 40% mais que em 2007.  Levantamento da Cia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Instituto de Fibras da Amazônia (Ifibram), mostram que a safra de juta e de malva neste ano será de 14,5 milhões de toneladas, número 12% maior que 2007.  Os Estados do Pará (30%) e Amazonas (70%) são os principais produtores do Brasil.  "As culturas da juta e malva são importantes para as comunidades ribeirinhas.  Além de impulsionar a economia, essas atividades evitam o êxodo rural", argumenta Arlindo de Oliveira Leão, secretário executivo do Ifibram.  Os números do Ifibram apontam que após atingir o ápice em 1981 - quando a produção chegou a 95,1 milhões de toneladas -, o cultivo quase desapareceu em 1996, período em que a produção chegou a 6,4 milhões de toneladas.  "O uso das sacolas plásticas e a redução do incentivo do Estado fez o setor perder espaço, além de afugentar muitas empresas do setor".  Leão acrescenta que das 19 empresas que atuavam em 1981, restam apenas 3.

 

Brenno Pacheco Borges Neto, gerente geral da fábrica da Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), diz que o setor passa por uma ótima fase, o que é atribuído ao bom momento da agricultura nacional.  "Tanto em volume de fabricação como em receita, nunca passamos por um momento tão bom".  Segundo ele, 75% da produção da empresa é absorvido pelo mercado de café e batata.  "O que vem crescendo nos últimos três anos é o consumo de fios, telas e sacolas, que hoje já ocupam 20% do portfólio da companhia.  Antes esse número não chegava a 3%".  O restante é absorvido pelos setores de cacau, amendoim, castanha, fumo, minério e outros.

 

O presidente da companhia, Oscar Faria Pacheco Borges, diz que o objetivo não é substituir plástico, mas oferecer uma opção limpa ecologicamente.  "Ainda não temos como cobrir o excesso de produção.  Mas empresa está investindo para ampliar a participação".  Ele avalia que em menos de dois anos, o consumo de sacolas poderá crescer 50%.  "As sacolas de juta duram bem mais que as de plástico e podem ser usadas mais de uma vez.  Se o consumidor incorporar o uso desse material no supermercado, por exemplo, teremos um mercado imenso", prevê.

 

Para isso, a empresa amplia seu parque industrial e planeja investir até o final deste ano R$ 1 milhão.  Cenildo Mota Gomes, gerente industrial da CTC, revela que parte dos antigos equipamentos já foram substituídos por outros mais modernos e eficientes.  "Na parte modernizada, a capacidade produtiva cresceu de 8 para 24 quilos por hora", calcula.  Para 2009, os recursos na modernização do parque industrial serão de R$ 1,5 milhão.  O processo de fabricação não utiliza nenhum produto químico e dura 5 dias.  Antes de ser feito o fio, a fibra recebe uma pulverização de óleo de palma como amaciante, passa por um período de descanso e depois é engomada em uma emulsão de farelo de milho ou fécula de mandioca misturada com água.

 

A CTC possui 65% do mercado e o faturamento esperado neste ano é de R$ 65 milhões, 22% maior que 2007.  Neste ano, a empresa está investindo R$ 500 mil em um fio para amarrar folhas de fumo.  As vendas deverão atingir 400 toneladas por ano, 4 % da capacidade produtiva .

 

Roberto Tenório

 

O repórter viajou a convite da CTC.

 

Ryota Oyama adaptou as 1ª mudas

 

As primeiras sementes da juta foram trazidas da Índia, país que é um dos maiores produtores mundiais, no início da década de 1930.  Só em 1935, após várias tentativas fracassadas para adaptar a cultura, o imigrante japonês Ryota Oyama selecionou duas mudas, que considerou mais vigorosas que as demais.  Foram plantadas na várzea para ver como reagiriam.  "Uma o rio levou na cheia e a outra forneceu o material genético", conta Arlindo de Oliveira Leão, secretário executivo do Ifibram.  A juta é bastante adaptada à amazônia e hoje é considerada um produto ecologicamente correto.  Enquanto ela se desfaz em dois anos, o algodão demora 10 anos e o poliéster mais de 100 anos.

 

Mas embora seja conhecida como "juta", apenas 10% da produção é composta por essa planta.  Os outros 90% são de malva, planta tropical que era considerada erva-daninha pelos agricultores do Pará, onde surgiu.  "Em 1971, ela foi trazida para experiência no Amazonas e a produção foi de 2,7 mil quilos", relembra Leão.  No mesmo ano, a juta rendeu 26 mil quilos.

 

A malva ganhou espaço por oferecer uma maior produtividade que a juta.  Mas o produtor ainda utiliza a juta na parte baixa do rio porque ela cresce mais rápido.  O ciclo de ambas é de seis meses e coincide com os períodos de cheia e seca do rio, de seis meses cada.  "O produtor aproveita o húmos do rio e planta as sementes.  A produção é totalmente limpa", esclarece Moacir Cavalcanti da Silva gerente de matéria-prima da (CTC).

 

Fujio Nogushi, 70 anos de idade, 40 anos trabalhando com as fibras da região, conta que ao chegar do Japão foi trabalhar com arroz, mas acabou migrando para a juta e malva.  "A produção tem mercado, né?", argumenta cheio de sotaque.

 

O secretário da produção rural do Amazonas, Eron Bezerra, diz que o governo está investindo R$ 1 milhão junto com a Suframa para certificar a cadeia da juta.

 

Roberto Tenório

 

Escassez de semente restringiu a produção

Dino Marinho tem 68 anos e sempre dependeu da cultura da juta para sobreviver.  Ele conta que além dos riscos diários que têm que enfrentar, como as ferroadas da arraia, a malária, a febre amarela e o reumatismo, resultado de uma vida inteira de trabalho dentro da água, ainda precisa lutar para conseguir as sementes, que são distribuídas pelo governo e pelas empresas beneficiadoras.  "A indústria troca um quilo de semente por 10 quilos da fibra pronta.  Isso prejudica muito", lamenta.  Além disso, informou que o governo distribuía até o início deste ano 20 quilos de sementes por produtor, o necessário para cobrir apenas uma área de um hectare, que possui uma produtividade média de 1,3 mil quilos.  "Nem todo mundo que recebia as sementes plantava".  Marinho faz parte de uma das 20 mil famílias que dependem da produção das fibras da juta e da malva para sobreviver.

 

Com os 20 hectares que possui, consegue uma receita de R$ 23 mil anuais, que pode variar se o rio subir mais rápido e prejudicar a produtividade.  O valor pago pelo quilo da fibra é de R$ 1,00, podendo chegar a R$ 1,20 dependendo da demanda do mercado.  O governo do estado paga subvenção de R$ 0,20 por quilo desde 2004 com o objetivo de garantir a produção.

 

"Para contornar a dificuldade, o governo planeja distribuir as sementes a partir de um comprovante com a quantidade de fibra vendida às empresas", esclareceu Zacarias Gondim, gerente da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), órgão do governo estadual.  Gondim informou que neste ano deverá ser adotada máquina para descascar o caule e retirar a fibra.  "Ela custará R$ 1.800,00 e evitará o processo de maceração, no qual o produtor fica muito tempo em contato com a água".  A produtividade da máquina será de 1,5 mil quilos por dia e reduzirá pela metade o tempo em que o produtor permanece na água.

 

Até o final deste ano, o governo federal em parceria com a Suframa vão investir R$ 35 milhões em assistência técnica e na cadeia produtiva do estado.  Edson Barcelos, presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (Idam), explicou que a verba será para reestruturação e assistência técnica ao produtor.

 

O secretário da Produção Rural do Amazonas, Eron Bezerra, disse que evitar o êxodo é uma questão de segurança da Amazônia.  "Não tem como defender uma área desocupada", afirmou.  Disse ainda que a expansão da produção não causará desmatamento.  "Precisamos de apenas 600 mil hectares para suprir a demanda da região".  No caso da juta e da malva, será investido R$ 1,2 milhão junto com a Suframa para a expansão de sementeiras em Manacapuru, Itaquatiara e Parintins.  Atualmente, o Brasil consome 20 mil toneladas e produz apenas 14,5 mil toneladas, de acordo com o Ifibram.  O restante é importado da Índia.

 

Roberto Tenório